sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A NOVA VELHA (DES)ORDEM DO MUNDO DIANTE DA MEGALOMANIA PIRATA DE TRUMP: A DESCONSTRUÇÃO DO CAPITAL E A PRODUÇÃO INCESSANTE DE RESSENTIMENTOS

 


I. O delírio das identidades diante de um ar de egos narcísicos e ressentidos

Um dos princípios basilares do capitalismo é criar um paiol de ideologias lastreado na alienação. A criação de farsas teatrais impulsiona desentendimentos, ignorância e ressentimentos, além de ajudar a desviar a atenção dos reais problemas que afetam os intestinos das sociedades, as economias erodidas e a degeneração política de um sistema de incessante exploração.

A desmobilização dos movimentos sociais, que se descolaram da consciência de classe e do seu papel no mundo, transformou-os em faroletes moralistas nauseantes, corrompidos pela lógica do patrocínio do Grande Capital. Para alimentar, com generosas irrigações financeiras, uma cadeia ideológica de ruminantes ressentimentos pós-modernos, com seus ativistas catequéticos, o Grande Capital se travestiu de ONGs filantrópicas e fundos beneplácitos que visavam não apenas influenciar a opinião pública, mas também as políticas públicas.

Não se pode esquecer que a mobilização por uma volúpia onanística de performáticos debates unidirecionais e ressentimentos narcísicos — desde devaneios raciais, guerrilhas de travesseiro de gênero até a constelação de “identidades desconstruídas” (assim como a nova faceta da “desconstrução do capital”) — foi um mecanismo de criação incessante de ideologias narcísicas e eugênicas, além de se constituir como nichos de mercado. Nesse ínterim, é importante sempre lembrar que os “tempos sociais” refletem, invariavelmente, os tempos econômicos do paradigma reinante do momento.

Um destaque sintomático é o esvaziamento de ideias conceituais que foram erguidas na Modernidade, mas que hoje sofrem um processo de desertificação e desqualificação. Questões sobre a universalização de conceitos foram atacadas e buscaram ser reduzidas a meros fragmentos tão subjetivos quanto inúteis.

Um fetiche emblemático da Pós-modernidade, parida sob a égide do neoliberalismo, por exemplo, está em destruir, humilhar e avacalhar a imagem idealizada do homem (a alardeada e tão fetichizada “masculinidade do branco”), retratando-o como afeminado, estúpido e covarde. Nesse lastro, buscou-se germinar uma retórica pulverizada de “identidades desconstruídas” e, por outro lado, ajudou-se a alimentar uma manada de ressentidos, desempregados ou subempregados e desiludidos, capitaneada pela Extrema Direita.

Com a queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética, no final do século passado, sem rumo e sem horizonte crível, um oceano de alucinações narcísicas tomou conta da ideologia daquilo que se chama “progressista”. Com isso, a Esquerda, em sua maioria, deixou a materialidade e a luta de classes, abandonou o marxismo e o esclarecimento da racionalidade, e mergulhou na fantasia degenerativa de acreditar que o Cavalo de Troia das “identidades” era o suprassumo do que havia de mais progressista na civilização!

A adesão acrítica, por parte de uma Esquerda submissa ao modelo neoliberal, a um gelatinoso “programa” a partir das identidades representou uma opção tão irresponsável quanto inútil. Para solapar a democracia e a cidadania, surgiram elementos ideológicos que implicaram um enfraquecimento e questionamento de seus pilares. Por exemplo, foi alicerçado o encantamento das “minorias” (ou seja, o regurgitado neologismo para “mercado consumidor”), como resposta a um “biotipo” moral do “novo mundo”, pautado por uma suposta “diversidade” monotemática, pedante e unidirecional.

Na lógica de uma excessiva “vitimização”, deslocada da materialidade, tudo poderia ser transformado em “minoria”, desde grupos populacionais até opções fetichistas sexuais — assim como se multiplicam os nichos de mercado.

As chamadas “minorias” não eram operacionalizadas como um número cardinal dentro de um universo estatístico, mas como teatro de operações culturalizantes, ampliando sua densidade em um papel de “vitimização” e buscando a espetacularização de sua própria existência. O próprio sentido de pertencimento foi erodido com o ideário antinacionalista, em que tudo era obra de “colonizadores” que somente sabiam fazer “apropriação cultural”. A consciência de classe foi transformada, em que uma parcela das minorias era vista como “vítima” de colonizadores!

Dessa forma, não houve uma preocupação objetiva em formar cidadãos e, tampouco, implementar efetivamente a cidadania (diante do Estado de Direito com sujeitos plenos de direitos), mas sim o multiplicar de identidades flutuantes no caldo cultural imposto pelas disforia das redes sociais, ONGs e coletivos militantes, ancorados nos nichos de mercado.

A pergunta que pode ser feita é: e se no mundo real, toda essa parafernália verborrágica tresloucada que buscava operar uma alienação narcísica das massas, não servir para nada? Pois é… E não é que a resposta veio de forma tão assustadora?

*

II. O mundo real chutou o balde e tudo o que era delírio se esvaiu em inquietação

Nem o ano de 2026 nasceu e já se tornou velho, assustador e caduco! A máscara do multiculturalismo neoliberal não se sustentou diante da agressividade incessante do capital. Daí, de forma desvairada, a realidade se desvela com um brutal escancaramento: um comandante de piratas na Casa Branca querendo pilhar o mundo — o bilionário Donald Trump. É importante ressaltar um breve resgate da trajetória de Trump, que agraciou com um mar de dólares o Partido Republicano, do qual se tornou o mais alardeado cacique.

Trump representa seu expressivo eleitorado estadunidense de ressentidos, em sua maioria com inclinações políticas extremistas de Direita. Com a condição de maior potência militar do planeta, Trump, sentado sobre ogivas nucleares capazes de destruir todo o planeta enésimas vezes, cada vez mais deixa o mundo estupefato com as bizarras, mesquinhas, violentas e erráticas atitudes da maior liderança oficial dos Estados Unidos.

O quase octogenário Trump sempre foi um bufão que, entre orgias, fortuna, escândalos e programas de televisão sensacionalistas, foi o que se chama de “outsider” da política dos Estados Unidos. O bilionário estadunidense nunca havia disputado nenhum cargo eletivo ou tido alguma relevância política no país quando foi eleito, pela primeira vez, presidente dos Estados Unidos, em 2016, e voltou a vencer em 2024.

Sobraram polêmicas em seu primeiro mandato, e Trump, inclusive, foi o inspirador do ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, por parte de sua militância de radicais da Extrema Direita, raivosos pela derrota na disputa por um segundo mandato. Com o fracasso do democrata Joe Biden no plano econômico pós-pandemia, Trump ganhou respiro e retornou triunfante à presidência, derrotando a então vice-presidente democrata Kamala Harris.

No segundo ano de seu mandato, Trump decidiu ampliar seu teatro fantasmagórico, que já se desenrolava no plano interno com a “caça aos imigrantes ilegais”. O comandante do maior exército do mundo passou a dizer, literalmente, que imporia a força para fazer prevalecer seus caprichos no globo. Com isso, Trump estabelece um mórbido cenário de destruição do Direito Internacional e atinge o âmago do que restava da desorganizada ordem global oriunda dos escombros da Guerra Fria.

E o que restou do teatro burlesco da retórica da “desconstrução do homem” na Pós-modernidade? Nada! Virou purpurina de fim de festa da orgia dionisíaca do vazio performático das ideologias autofágicas pós-modernas. Nada disso serve para alguma coisa em tempos de pirataria e destruição acachapante promovidas pelos arautos mais perversos do capital na atualidade.

Sob um cenário nebuloso, um novo e destrutivo mundo está eclodindo diante dos olhos atônicos de todo o planeta. Nesse mundo, mais parecido com uma distopia de ficção futurista, tem-se um Trump megalomaníaco que age de forma tresloucada, pisando em qualquer coisa que seu ego desejar, para agitar seu público interno e ser aplaudido por seu eleitorado de reacionários ressentidos.

Destaca-se que Trump é obcecado por plateia e, para ele, nada é mais importante do que se mostrar como uma grande e gorda cereja, mais expressiva e adorada do que o bolo do complexo governamental estadunidense. E a realidade do mundo para Trump? Às favas!

Enfim, estamos sendo brutalmente tragados para o saco sem fundo de uma nova era em que, do jeito que se esboça o anárquico quadro da geopolítica mundial, não haverá mais segurança para ninguém. Trump, em busca de uma contínua carga emocional midiática para seu eleitorado interno, rompeu todos os laços da frágil estabilidade que delimitavam uma aparente racionalidade civilizatória. A aposta na barbárie, na banalização dos conflitos e na psicotização da sociedade está, enfim, colocando suas cartas na mesa e revelando uma nova face de uma espécie de capitalismo anárquico da monstruosidade.

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III. A diluição das fronteiras sem nenhum limite: redesenhando a colonização da América Latina e a pilhagem como nova era da anarquia capitalista

Com a aventura do sequestro do presidente Nicolás Maduro e, consequentemente, a pirataria e a pilhagem do petróleo praticadas por Trump na Venezuela, ventila-se que uma reconfiguração da velha “Doutrina Monroe” se reinstala, com o objetivo de transformar, novamente, toda a América Latina em um curral submisso aos interesses políticos de Washington, encurralada pelas Forças Armadas estadunidenses.

Diante da lenta e turva derrocada econômica dos Estados Unidos, pode-se afirmar que se trata de uma estratégia pontual de Trump e de sua típica megalomania maníaco-obsessiva. Todavia, convenhamos: alguém acreditaria que, por exemplo, em um eventual governo da ex-concorrente de Trump à Casa Branca, a democrata Kamala Harris, algo seria substancialmente diferente em relação à Venezuela? Talvez com mais sutileza do que sequestrar o presidente local; porém, a agressividade perante os países latino-americanos não destoaria da de Trump.

Não vivemos apenas tempos nauseantes, mas também a diluição do pensamento crítico e a perda do senso de observação diante da realidade, em meio a um oceano explosivo no qual a violência se impõe diante da deterioração dos Estados nacionais, que agem não em favor de seus cidadãos, mas explicitamente em prol das grandes empresas transnacionais, por sua vez operadas pelo capital financeiro multifacetado.

O sucesso de lideranças grotescas da Extrema Direita, em grande parte, é reflexo da falta de propostas e de um programa realista para animar os trabalhadores e reconquistar a confiança das massas, perdidas nos sucessivos anos do neoliberalismo imposto no mundo e, de maneira intensa, no Brasil. A ascensão de uma Extrema Direita com adesão popular permitiu criar condições para figuras de fora da política formal, como Trump, projetarem-se como “salvadores da pátria” e despejarem uma torrente de bravatas e um programa reacionário para alimentar uma militância ávida por soluções mágicas instantâneas.

A partir dessa trágica realidade, as normas costuradas por um mínimo de “civilidade” estão ruindo sem qualquer parâmetro, e as garantias humanitárias evaporam-se, tal como a esperança de dias melhores. O novo mundo se apresenta como um lugar mais perigoso e inseguro do que antes, e tudo o que foi alimentado e validado por construções patologicamente narcísicas dos sujeitos nada vale, não apenas para compreender o cenário que se avizinha, mas também para modificar o que está em curso. O futuro, no momento, é da cor de uma longa noite sem estrelas diante de um eclipse lunar.

(Wellington Fontes Menezes)

 


terça-feira, 25 de novembro de 2025

BOZO NA CADEIA: O DESCARTE!

 


Enfim, Jair Bolsonaro foi preso preventivamente após rumores sobre uma possível tentativa de fuga para o exterior.  Abandonado pelos próprios capachos, a carne podre do maior facínora das últimas décadas, finalmente, está sendo exposta para deleite do público que tem por sua personagem total ojeriza, além de servir de munição para os grupos de Extrema Direita.

Não há ilusões quanto ao projeto da burguesia de tratar seus criados da mesma forma que trata os seres desvalidos, descartados e desprezados. A burguesia que o gestou, alimentou, financiou e empurrou ao poder agora o descarta sem piedade, jogando-o na lata de lixo da história: o lugar destinado aos seus instrumentos que perdem utilidade.

Na democracia liberal engessada pelo Grande Capital, a burguesia jamais perdoa seus serviçais ineptos. Basta lembrar o que aconteceu com Collor de Mello, o ex-caçador de marajás, e com Dilma Rousseff, a nossa versão tropical de Margaret Thatcher: ambos expulsos do poder em plena atividade, sem qualquer cerimônia.

Bolsonaro fracassou miseravelmente em levar adiante o projeto ultraliberal, tão ao gosto das elites, como o presidente “anarcocapitalista” Javier Milei tenta fazer agora na Argentina. A crise sanitária do coronavírus (2020–2023) escancarou a incapacidade de seu ministro-banqueiro, Paulo Guedes, de manter o roteiro destrutivo diante da morte de mais de 700 mil brasileiros e de milhões de contaminados.

O desastre absoluto de Bolsonaro na gestão da pandemia implodiu seu próprio governo. Ainda assim, na tentativa de reeleição, sua derrota eleitoral foi diante de um pleito apertadíssimo em disputa com o vitoroso e recém-“regenerado” Lula. A quase-vitória se transbordou em fracasso. Era um aviso de que o sistema não abre mão de seus operadores mais fiéis e talentosos.

Bolsonaro acabou sendo assado em fogo brando pelo mesmo Supremo Tribunal Federal (STF) que abençoou o “golpe parlamentar-empresarial” de 2016 e derrubou Dilma sem remorso.

A burguesia, com suas diversas facetas, não tolera incompetência entre seus serviçais. Fernando Henrique e Lula são exemplos de presidentes afinados com os interesses do Grande Capital. Lula, inclusive, foi tirado da geladeira para servir novamente à ordem estabelecida, depois da frustração com o desempenho caótico de Bolsonaro.

Não nos iludamos sobre o jogo bruto que move as democracias liberais. Nada é tão simplório quanto a fantasia de que “a justiça foi feita”. Bolsonaro caiu por ser inútil ao sistema e, ao contrário do que tenta produzir uma certa e poliana “narrativa progressista”, não foi por suas monstruosidades enquanto governava e deixava o país náufrago.

Aliás, o fascismo cumpre sempre o mesmo papel nas democracias liberais, da Alemanha de Weimar à trôpega democracia brasileira: faz a “limpeza” dos indesejáveis, açoita os trabalhadores, aplica o “choque de gestão” necessário e, depois, é varrido da cena política. Claro, tudo isso até que a próxima crise do capitalismo o convoque novamente.

Assim foi com os militares que consolidaram duas décadas de uma cruel ditadura, com Collor, com Dilma, e agora com Bolsonaro. Rei posto, rei deposto, e a engrenagem do Grande Capital continua girando, faminta pela exploração da massa de trabalhadores, pela alienação social e por lucros — muitos lucros!

(Wellington Fontes Menezes)

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

AQUI É SÓ ALEGRIA! VIVA A FARRA DOS PARASITAS DA EDUCAÇÃO!

 

Ao invés de investir na educação pública, o Ministério da Educação (MEC), gerenciado pelo anti-ministro Camilo Sacana e loteado pelo grande capital, demonstra todo o deboche ao torrar milhões do dinheiro público com ONG$ que vampirizam a educação. Tudo sob a batuta pomposa, com um ar mofado e eleitoral, sustentado por um discurso populista e demagógico, diante do projeto de patrocínio a supostos“cursinhos populares”.

Ao manter toda a estrutura desastrosa do “Novo Ensino Médio”, decorrente da onda golpista de 2016, encabeçada por Michel Temer, fica evidente que Lula e o PT sinalizam concordar com a mesma política de destruição da Educação Básica em seus níveis mais profundos.

Ao manter os poderes estruturais de Temer e Bolsonaro, na prática, o grotesco e escandaloso projeto de Camilo Sacana configura-se como uma espécie disfarçada de terceirização do Ensino Médio. Afinal, aceitar “cursinhos pré-vestibulares” como alternativa de patrocínio significa, na realidade, que o Estado jogou a toalha e não acredita em seu próprio modelo de Ensino Médio. Nada mais neoliberal do que a educação pública sendo entregue a grupos privados disfarçados de boas samaritanas ONG$.

A cada momento, um novo projeto desconexo e perdulário é lançado à praça. Claramente, observa-se o viés sensacionalista na tentativa de angariar votos para o próximo período eleitoral. Um grande exemplo é o inacreditável projeto “Pé-de-Meia”, tão comemorado pelo MEC de Camilo Sacana, que doa dinheiro público a alunos do Ensino Médio de escolas públicas, sem nenhuma contrapartida factível — além da óbvia e burocrática “presença em sala de aula”. Tal “projeto exemplar” mostra como se desperdiça dinheiro público e, pior ainda, como se fomenta uma cultura de consumismo juvenil e descompromisso com o verdadeiro sentido da educação.

Sem projeto de nação, o que sobra, diante deste modelo que evidencia um rebotalho de país, é a loucura cínica e o desperdício em nome de uma política perdulária e inútil de assistencialismo demagógico.

Imagine, caro leitor, por exemplo, quanto a turma do espertalhão Frei Davi e sua fábrica de ódio, pautada no “capitalismo racial” — a Educafro — não vai lucrar com essa “parceria” com o MEC? Tudo de forma “oficial” e farreando com o erário!

Ora, pergunta-se: para que Direita ou Extrema Direita, se temos uma Ex-querda neoliberal tão decadente, irresponsável e nefasta?

(Wellington Fontes Menezes)


👉 PARA SABER MAIS: https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2025/outubro/mec-anuncia-mais-investimentos-para-cursinhos-populares

domingo, 19 de outubro de 2025

NA ONDA NEOLIBERAL, UMA DEMAGOGIA POPULISTA — MAS PODE CHAMAR DE "COTISMO"

 


Como é delicioso o cinismo desta Ex-esquerda neoliberal, que opera como capacho obediente do grande capital. Fernando Haddad é o símbolo desse capachismo de Ex-esquerda. Ora, se o cotismo é como uma "reforma agrária", como afirma Haddad, então por que não tenta lotear os latifúndios do agronegócio para os trabalhadores?

Em vez de ampliar a diversificação e universalização do acesso e melhorar as condições efetivas da educação no Brasil, o raso e sensacionalista populismo cotista naturalizou-se nas práticas governamentais diante da pavimentação do deserto de futuro imposto pela ideologia neoliberal.

O "cotismo" era o prêmio de consolação, usado como esfarrapada desculpa provisória diante das históricas disparidades econômicas da classe trabalhadora brasileira, para "melhorar a educação".

Para não trabalhar por um Estado de bem-estar social permanente, com mudanças estruturais na sociedade brasileira, a opção "negociada" da ex-esquerda neoliberal — no poder desde 2002 — foi a lógica eleitoral do assistencialismo imediatista, de menor impacto frente aos interesses da burguesia. Porém, como era previsível, a mentira do "cotismo provisório" cristalizou-se como "verdade inquestionável" e tornou-se um engodo permanente.

Nada se cria, tudo se cotiza! Nada mais simplista e demagógico do que dar uma "canetada" governamental criando "reserva de mercado" para vagas em universidades públicas e concursos públicos — em especial, aqueles que oferecem altos salários.

Portanto, fomentar a ilusão da ascensão social via cotização de "vagas universitárias" ou concursos públicos cristalizou-se na sociedade, sem levar em conta a realidade econômica de rebaixamento dos salários nominais e da perda efetiva do poder de compra por parte da classe trabalhadora. Sendo assim, a precarização da vida tornou-se peça integrante da farsesca propaganda da "nova classe média", cada vez mais endividada e sem rumo.

Para alimentar a insanidade pós-moderna, existem aqueles que acreditam, como hercúleos catequistas, que o fetichismo do cotismo é um "projeto de esquerda" — com um punhado de vagas —, quase um "socialismo tupiniquim"! Karl Marx se revira no túmulo nestas horas alucinógenas! O mais insano é achar que o cotismo é a nova prática de Robin Hood da pós-modernidade, como se a burguesia realmente trabalhasse e estivesse ocupando cargos nos serviços públicos... Haja chá de cogumelo para essa malta de aloprados!

No jogo da coberta curta — em que se puxa de um lado e se descobre o outro —, o cotismo ampliou o ilusório discurso do alpinismo social diante da nefasta onda identitária. Ademais, ainda temos uma farsesca guerra cultural entre oportunistas e falsas oportunidades.

Com o passar do tempo, no Brasil do deserto neoliberal, os índices educacionais seguem catastróficos, o analfabetismo funcional avança, e a demagogia da tábua de salvação do cotismo continua em alta.

As vagas das universidades públicas transformaram-se, justamente, nessa torpe tábua de salvação, usada para mascarar pífias e demagógicas políticas públicas. E, sendo assim, segue a todo vapor para projetos eleitoreiros de políticos de plantão.

Por sinal, a eleitoreira Ex-esquerda neoliberal abraça o sadismo da Direita e finge demência para ignorar que tais medidas cotistas esbarram no universalismo democrático preconizado na Constituição Federal de 1988.

Enquanto isso, entra e sai governo, com diferentes fantasias ideológicas, mas o Ministério da Educação (MEC) segue sendo loteado pela lógica neoliberal dos interesses espúrios de empresários, ONGs e fundações privadas — como é o caso do famigerado Conselho Nacional de Educação (CNE).

(Wellington Fontes Menezes)


👉 PARA SABER MAIS: https://www.terra.com.br/noticias/educacao/haddad-diz-que-reservar-50-das-vagas-universitarias-para-escola-publica-equivale-a-reforma-agraria,4652356d033a0f44c67714468f63a0cc3xcya5jh.html 

 

A LÓGICA NEOLIBERAL DA “TARIFA ZERO”


Primeiro, privatiza-se, sem piedade, todo o serviço público de transportes, incluindo todas as empresas estatais que operam no setor.

Depois de tornar-se perdulário e sucateado, o sistema de transporte público converte-se em um problema social e, então, oferece-se uma sedutora solução mágica: TARIFA ZERO!

Em que consiste? Para subsidiar as supostas gratuidades no setor de transporte, o Poder Público destinará uma enorme fatia de recursos do orçamento para entregar às empresas privatizadas, sob a forma de “subsídios”; ou seja, recursos garantidos do erário para os bolsos dos tubarões do setor de transportes públicos.

Dessa forma, o sistema público seguirá precarizado, os empresários tornar-se-ão cada vez mais milionários — e sempre reclamando da suposta insuficiência dos subsídios —, enquanto, como era de se esperar, a população continuará sofrendo com a precarização dos transportes públicos.

Afinal, não é uma maravilha a lógica neoliberal do Estado mínimo para os trabalhadores e do lucro máximo para os capitalistas de plantão?

(Wellington Fontes Menezes)


domingo, 12 de outubro de 2025

QUANDO A MILITÂNCIA IDEOLÓGICA REACIONÁRIA SE FANTASIA DE "JORNALISMO PROGRESSISTA"

 


Para variar, como já se tornou rotina das “reportagens jornalísticas” que grassam pelo país em tempos de redes sociais, a matéria do GGN Notícias, “População de rua precisa ser incluída no censo do IBGE”, é um exemplo prático de como fazer ativismo ideológico reacionário travestido de jornalismo com preocupações progressistas — induzindo o leitor ao erro, à distorção da realidade e fomentando a projeção do ódio racial na sociedade.

Se a reportagem trata, em seu tema central, da necessidade de o IBGE mapear e contabilizar a população em situação de rua no Brasil, como é possível que a mesma reportagem afirme, de antemão, que essa população é "majoritariamente negra"?

Dessa forma, sem apresentar qualquer dado que comprove tal afirmação, a reportagem segue induzindo e seduzindo o leitor ao equívoco, ao enfatizar que o problema da população de rua se sintetiza na famigerada "questão racial" — inviabilizando qualquer reflexão mais profunda sobre a complexidade dessa população específica que, apesar do preconceito latente, vai muito além do simplório estereótipo racial.

Ora, se fosse verdade, a priori, que a população de rua é fruto de uma suposta moral preconceituosa da sociedade brasileira, qual seria, então, a razão de o IBGE desejar realizar tal pesquisa? Logo, se a bola de cristal do redator da matéria fosse levada a sério, a própria reportagem sequer existiria, já que o perfil demográfico da população de rua já seria conhecido — o que tornaria a pesquisa do IBGE redundante ou desnecessária.

Em tempos de ideologia neoliberal, tornou-se tão leviano quanto corriqueiro o apelo racial para justificar as brutais desigualdades sociais de forma tão acachapante e definitiva. A questão da estrutura de exploração e massacre dos trabalhadores brasileiros é ocultada e, num passe de mágica, tudo é reduzido ao apelo moral do "racismo".

O apelo generalista e desonesto, recorrendo ao uso da inquestionável questão escravocrata brasileira como justificativa totalizante, é outra falácia argumentativa usual pós-moderna. É equivocado e rasteiro partir de uma premissa verdadeira — a escravidão colonial — para justificar o nível de miserabilidade racial da população de rua na atualidade, como se, mais de 137 anos depois, a estrutura social brasileira permanecesse intacta, sem nenhuma alteração desde a promulgação da Lei Áurea, em 1888, e como se sequer o capitalismo tardio tivesse sido inaugurado no Brasil.

Não é estranho que, dentro de uma onda de promoção à guerra racial no Brasil, esteja se produzindo até a alcunha de um suposto “capitalismo racial”, como se as estruturas capitalistas obedecessem, somente, a regras morais que tangenciam a ideia eugenista nazista de raça. Assim, diante dessa retórica racialista, tudo derivaria de uma “ancestral” guerra racial entre dois tipos ideais de seres humanos: os “com” e os “sem” melanina.

As atrocidades do capitalismo são tão complexas, diante da luta de classes, que não obedecem a um único fator determinístico capaz de explicar suas contradições e destrutividade dentro de uma sociedade de exploração do trabalho e deificação do capital. Enfim, chegamos ao fosso ativista da estupidez ideológica do deserto neoliberal que reina na pós-modernidade.

Não causa surpresa, ao se observar o baixo nível do repertório argumentativo do ativismo identitário racial — promovido aberta e fartamente pelo Grande Capital —, que se busque induzir à ideia preconcebida de que todos os atuais problemas sociais brasileiros se restringem à questão moral da escravidão e, por sua vez, a esta como o único vetor de construção da complexa estrutura socioeconômica brasileira.

Vale ressaltar que, se considerarmos a realidade da estratificação social da população negra brasileira (sem utilizar a instrumentação ideológica de incluir a “população parda” para ampliar artificialmente os dados estatísticos), essa população seria majoritária apenas no discurso, pois, na realidade, restringe-se a cerca de 10% da população geral, segundo o último censo do IBGE.

A retórica das identidades racializadas segue uma mesma e mecânica estratégia ideológica: a manipulação da linguagem por meio das palavras mágicas da política identitária, que busca transformar toda a realidade material em espalhafatosas questões comportamentais e moralistas.

Sendo assim, não seriam as brutais desigualdades estruturais da economia que devastam os seres humanos, mas sim o sintético e subjetivo "preconceito". Segundo essa lógica rasteira, desloca-se a questão da disparidade de classes sociais, imposta pelo aparelhamento de exploração capitalista, para o campo subjetivo e moral da racialização social.

Quando a militância política se fantasia de jornalismo, o resultado é um show de mentiras e distorções da realidade — seja em noticiários mais "conservadores" ou "progressistas". Em ambos os casos, a verdade é sempre a primeira vítima a sangrar quando o ativismo se impõe acima dos fatos materiais que interessam à sociedade, embalado por uma retórica discursiva obcecada pelo obscurantismo e pelo fanatismo ideológico.

(Wellington Fontes Menezes)

  

👉 PARA SABER MAIS: https://jornalggn.com.br/noticia/populacao-em-situacao-de-rua-precisa-ser-incluida-em-censo-do-ibge-alerta-especialista/

 

 


quinta-feira, 9 de outubro de 2025

A PSICANÁLISE: ENTRE A HIPOCRISIA E A RENDIÇÃO AO CHARLATANISMO IDENTITÁRIO

 


Foi com espanto que li o artigo de Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP, publicado na Revista Jacobin. Conhecido por sua atuação no campo da Psicanálise e por seu trânsito fluente nas redes sociais, Dunker parece cada vez mais alinhado com uma visão que abandona a crítica rigorosa em nome de um engajamento superficial com pautas identitárias.

Ao mesmo tempo em que defende que a Psicanálise continue sendo ensinada fora da graduação, em centros específicos de formação — como sempre foi historicamente — Dunker propõe uma espécie de “Psicanálise decolonial”. O que isso significa, na prática, é abrir espaço para que concepções subjetivas, muitas vezes desprovidas de fundamento teórico consistente, ocupem o lugar da crítica e do método psicanalítico. A contradição é evidente: o que se apresenta como ampliação do saber pode ser, na verdade, sua diluição.

Essa guinada não é isolada. Ela acompanha uma tendência mais ampla de absorção acrítica de discursos identitários pelo meio acadêmico e intelectual. Muitas vezes, essa adesão parece menos motivada por compromisso com a verdade e mais por desejo de aceitação em nichos sociais digitalmente engajados. Nas redes, Dunker atua como figura simpática e bem-humorada, comunicando-se com uma audiência que consome conteúdo rápido e ideologicamente alinhado — uma espécie de classe média “descolada” em busca de referências culturais palatáveis.

A crítica aqui não é à necessidade de abertura da Psicanálise a novos contextos e vozes, mas à maneira como isso tem sido feito: com pouca reflexão crítica, substituindo o rigor por jargões e uma retórica que confunde diferença com valor epistêmico. Em nome da pluralidade, aceita-se como equivalente ao método psicanalítico qualquer narrativa que se reivindique "ancestral" ou "decolonial", mesmo que desprovida de lastro teórico ou clínico.

A Esquerda — que com razão combateu o charlatanismo da Extrema Direita, simbolizado por figuras como Olavo de Carvalho — hoje reproduz, no outro extremo, uma forma de obscurantismo travestido de progressismo. Há, nesse campo, uma tendência preocupante de santificar figuras e discursos que, embora revestidos de uma estética libertadora, operam com as mesmas distorções anticientíficas que tanto se combateu em outros contextos. As “olavices” de um lado encontram seus equivalentes no endeusamento acrítico de certos nomes e ideias do campo identitário.

O resultado disso é um ambiente acadêmico cada vez mais hostil à crítica e ao debate. Parte da comunidade universitária, antes combativa, tornou-se complacente. Contra a Extrema Direita, mostra-se corajosa; mas diante das pressões identitárias, comporta-se com timidez. A crítica é substituída pela conivência, e o discurso científico cede espaço a slogans vazios, práticas clientelistas e mecanismos de exclusão disfarçados de inclusão — como a adoção de critérios identitários para ingresso na Pós-graduação ou na seleção de docentes, em detrimento do mérito acadêmico.

Dunker, nesse cenário, parece mais interessado em “lacrar” para sua bolha do que em enfrentar os dilemas reais da Psicanálise contemporânea. Ao invés de defender o campo contra sua banalização e fragmentação, ele a submete à lógica da performance, das redes e das identidades como mercadoria. A Psicanálise — que sempre foi um saber incômodo, capaz de desestabilizar certezas — é transformada em instrumento de validação do narcisismo coletivo.

Se é verdade que a formação psicanalítica não precisa, necessariamente, ocorrer dentro dos cursos de graduação, também é verdade que abrir mão de seus métodos, critérios e fundamentos teóricos é condená-la à irrelevância. A Psicanálise perde sua força crítica quando se torna apenas mais uma linguagem simbólica em meio à cacofonia das “vozes invisibilizadas”, usada para justificar qualquer coisa — desde autoajuda espiritualizada até pautas corporativas identitárias.

Diante dessa ópera bufa, o que se exige é responsabilidade intelectual. Menos oportunismo e mais compromisso com o pensamento. A Psicanálise — como qualquer saber comprometido com a complexidade humana — não pode sobreviver se render-se a modismos, sejam eles autoritários ou supostamente libertários. A crítica deve ser feita de forma honesta, mesmo que desconfortável. Afinal, não é essa uma das vocações centrais da Psicanálise?

👉 PARA SABER MAIS: https://jacobin.com.br/2025/10/sobre-graduacoes-e-pseudoformacoes-em-psicanalise-no-brasil/

(Wellington Fontes Menezes)


A NOVA VELHA (DES)ORDEM DO MUNDO DIANTE DA MEGALOMANIA PIRATA DE TRUMP: A DESCONSTRUÇÃO DO CAPITAL E A PRODUÇÃO INCESSANTE DE RESSENTIMENTOS

  I. O delírio das identidades diante de um ar de egos narcísicos e ressentidos Um dos princípios basilares do capitalismo é criar um paio...